A Parada é para sempre


Poucos sabem explicar, até hoje, como uma manifestação de pessoas discriminadas foi capaz de atrair tanta gente.

Após 13 anos, a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo é uma manifestação social tão impactante, grandiosa e bem sucedida, que provoca enormes mal-entendidos, mesmo entre agentes diretamente ligados à sua organização. Eu, que acompanho o movimento desde antes da primeira Parada, sei como era não tê-la e posso levantar algumas pistas.


Durante mais de uma década, algo que deixava todos perplexos era uma manifestação de milhões de pessoas ter tão poucas ocorrências de delitos e nenhum incidente grave. Com mais de três milhões de participantes, ela continua tendo poucas ocorrências, considerada pela própria polícia um dos eventos mais seguros da cidade. O que poucos entendem é, justamente, que o caráter daquele público é diferenciado. Que a motivação daquelas pessoas estarem ali é contrária a qualquer tipo de violência. Que seu objetivo é lutar contra a violência física e moral que vivem cotidianamente, durante toda a vida. E querem fazer isso de forma irreverente e divertida. Ironizando a ignorância alheia.

Na 13ª. edição, setores reacionários organizados puseram as manguinhas de fora e mostraram do que são capazes. Uns gatos pingados nada representativos, que conseguem fazer grandes estragos morais articulando ações típicas de terror. Contra esses seres covardes, só a punição resolve. Contra essa mentalidade inferior, um gesto de envergadura maior é necessário. A aprovação imediata do PLC 122/06 daria uma demonstração do quanto a sociedade brasileira reprova esse pensamento.

Poucos sabem explicar, até hoje, como uma manifestação de pessoas discriminadas foi capaz de atrair tanta gente. A Parada sempre foi motivo de brincadeiras preconceituosas sobre quem teria ido ou iria à manifestação. Aparecer na televisão dançando ali certamente seria motivo de constrangimento para muitos. Mesmo assim, cada vez mais gente vai e, cada vez menos, se importam com o preconceito. Muitos “saem do armário” em plena avenida, empurrados pelo sentimento catártico de liberdade. Uma mudança de mentalidade que faz a Parada cumprir seus principais objetivos.

Com tão poucos atrativos, além de trios elétricos em marcha, é quase um mistério a vibração e alegria que contagia o público, ao ponto da emoção explícita. Não há como não se comover com a presença massiva de gays efeminados, lésbicas masculinizadas ou travestis abusadas, muitas vezes pobres, que saem de ambientes opressivos da periferia da cidade ou das quitinetes do centro, para ocupar, com a exuberância de seus corpos, um dos pontos mais nobres da maior cidade da América Latina.

É difícil para a maioria das pessoas heterossexuais entenderem o significado das paradas para gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, apenas olhando o noticiário. É uma manifestação feita por eles, para eles, mas com o objetivo primário de se tornar visível para todos. Vivendo num cotidiano de invisibilidade e discriminação, em que LGBT são descritos como seres bizarros, patéticos e nocivos, quando vamos à Parada, queremos mostrar que somos como todos os outros. E conseguimos. No mundo inteiro, há quarenta anos, as paradas LGBT acontecem com esse objetivo, mostrar que somos iguais, pois somos humanos, e somos diferentes, como todo mundo, e queremos respeito a nossas diferenças.

Cada vez mais, aqueles que estão fora da sigla LGBT comparecem para sentir esta vibração única. Cada vez mais pessoas, entendem que, ali, na Avenida Paulista, todos os anos, vivemos um dos momentos mais democráticos e simbólicos para o país. Mostramos para o mundo inteiro que, mesmo que estejamos longe de uma democracia plena, sonhamos com ela. A Parada é esse sonho materializado, um sentimento abstrato em movimento, uma dança onírica em direção ao futuro.

Dizer que a Parada não merece a Avenida Paulista, que deveria se confinar num Sambódromo, num Estádio do Morumbi ou marchar pelo Autódromo de Interlagos ou por uma avenida qualquer, é não entender nada. É estar fora de sintonia com o significado da Parada. Ela não existe sem tudo aquilo que personifica seu mistério. Não é possível aprisionar todos esses sentimentos ambíguos numa arena de shows.

A Avenida Paulista é daqueles poucos espaços públicos que transpiram modernidade e riqueza, ao ponto de, cotidianamente, lésbicas andarem de mãos dadas ou gays se sentirem seguros para beijar em público. Um dos poucos lugares desse país, onde podemos nos sentir parte do que há de melhor na cidade; parte da grande comunidade de paulistanos. Uma gente que gosta de mostrar para o resto do país que tem o melhor da civilização. Uma cidade que quer influenciar todas as outras, tornando-as mais modernas e ricas, mais sofisticadas e cultas, mais democráticas e humanas. Não é a toa que, depois da Parada paulistana, 150 outras se multiplicam pelo país, mesmo nos rincões mais remotos. Não é a toa que uma ampla comunidade de LGBT mora nas imediações dessa avenida. É por isso que arriscar proibir a Parada na Avenida Paulista causa tanta comoção entre LGBT. Lutar por esse espaço de visibilidade, é um dever de todos que defendem o direito constitucional de manifestação.

Quem quiser subverter o significado original dessa manifestação de rua para continuar atraindo turistas, com seu poder milionário de consumo, terá que fazê-lo sem chamar de Parada do Orgulho LGBT. Terá que fazê-lo sem a chancela do movimento social que está apenas no início de sua luta contra os preconceitos e a homofobia, mas ainda tem muito fôlego pela frente. Terá que fazê-lo ciente de que toda a energia explosiva que contagia a Parada estará ausente. Ciente de que tantos milhares de pessoas vêm a São Paulo, de todas as partes do país e do mundo, para ver este significado. A Paulista é um cartão postal muito mais bonito, quando ocupado pela bandeira do arco-íris.

Eventos fechados pipocam pela cidade inteira no mês da Parada. Muita gente ganha seu dinheirinho nesse período. O que poucos admitem, é que essa população de turistas e paulistanos dispostos a gastar e festejar mais que o normal, o fazem por causa da Parada. A manifestação máxima de visibilidade LGBT justifica todo o resto.

Por outro lado, a cada ano, se consolida a idéia de que a Parada é mais que uma festa. A Parada é engajada em causas difíceis. Disputa espaço político com os setores mais reacionários da sociedade. Mesmo aqueles LGBT que não atuam organicamente em movimentos políticos, gostam de poder dizer que prestigiaram a Parada e deram seu recado contra a homofobia. Nem que tenha sido uma passagem rápida, “porque estava muito cheia”. Mesmo quando a imprensa fala muito do “pink money” ou de ocorrências policiais, não há como não falar das reivindicações. Reportagens sobre homofobia e direitos negados pululam em todas as emissoras de tv, rádio, revistas e jornais, mostrando os rostos dessa população discriminada.

Para aqueles mais engajados que questionam a Parada por sua dimensão e o modo diluído como politiza a população LGBT, é bom ter claro que ela não é a única estratégica política do movimento. É apenas a mais poderosa. O movimento e suas lutas estão nas conferências, seminários, encontros e congressos das entidades. As alianças nos parlamentos e governos com conquistas importantes de políticas públicas ocorrem em todo o país. Os protestos e cobranças diante de crimes homofóbicos são cotidianos nas entidades. Todo dia tem encontros de auto-ajuda ou cursos e debates nas entidades do movimento. Mesmo assim, a Parada consegue sintetizar tudo que o movimento sonhou como estratégia política. Agrega, comunga, provoca, conquista, liberta, expressa, celebra, esquece, lembra, iguala, diferencia. Tudo que sonhamos e talvez nem conquistemos, acontece ali. Como se a vida e a felicidade fosse possível apenas naquele momento.

Com sambódromo ou sem turistas, a Parada continuará a ocorrer como manifestação de rua. Continuará sendo um dos principais instrumentos de luta de LGBT. Permanecerá ocupando ruas que transitam valores simbólicos e afetivos para LGBT de São Paulo. Quando tivermos conquistado todos nossos direitos e não houver mais preconceito, as paradas continuarão sendo nosso momento de celebração e orgulho. Serão a memória permanente do sofrimento daqueles que viveram tempos difíceis. Serão a memória permanente das conquistas daqueles que não aceitam recuos ou retrocessos.

Gigantescas ou pequeninas, as paradas serão sempre um ritual de resistência. Aquele momento em que dizemos que a cidade também é nossa. Mais nossa do que dos intolerantes e mal-humorados que prefeririam um país para poucos, em que uns mandam e a maioria obedece. Raras vezes, o poder público estimula a ocupação das ruas pelas pessoas de bem, pois é mais cômodo manter todos protegidos em suas casas. Parabéns aos governos quando incentivam manifestações como a Parada. Quando não fizerem, nós, cidadãos, o faremos. É isso que a maioria dos paulistanos deseja para sua cidade, sejam eles LGBT ou não.

Poucos percebem isso, mas ocupar a principal avenida do Brasil, todo ano, é uma conquista profunda e difícil; por isso mesmo, sempre questionada por aqueles que não se conformam com isso.

Quem é Cezar Xavier

Jornalista, estudioso de semiótica. Queria analisar cinema, mas acabou vendo mais política que filmes. Pianista amador, sem grandes ambições musicais, que se sentiu plenamente realizado ao ter todas as partituras do Cancioneiro Jobim para tocar para si mesmo. Seu primeiro "job" depois de sair da faculdade foi a assessoria de imprensa para o primeiro candidato assumidamente gay de São Paulo, o aspirante a vereador Elias Lilikã, em 1996. Voltou ao ativismo, há quatro anos, como coordenador de comunicação da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOGLBT), onde vive fortes emoções. Desde o último ano, integra a equipe de editores de histórias de vida para exposições e livros do Museu da Pessoa.

Artigo publicado em www.sigampost.com.br em 18/10/2009

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