Tatuagem e preconceito - Nosso corpo, nossas regras!



Foi-se o tempo em que tatuagem era sinônimo de transgressão. 

Hoje em dia, é difícil encontrar alguém que não tenha ao menos um desenho pelo corpo ou vontade de fazer um.

Vale tudo, de uma estrelinha para representar o nascimento do filho a um São Jorge com seu cavalo e lança, representando proteção.

Mas, segundo uma pesquisa sobre o comportamento dos tatuados brasileiros realizada pelo Tattoo2me em 2018 com 5.390 pessoas, 57,96% dos entrevistados relataram ter sofrido algum tipo de preconceito por terem tatuagem. Desses, 73,89% relataram ter sofrido preconceito dentro da própria família e apenas 22,26% sofreram preconceito no trabalho.

Isso nos deixa claro que a tatuagem ainda é motivo de preconceito. E olha que estes dados são de 2018!



A origem da tatuagem


O registro mais antigo de uma tatuagem foi descoberto em 1991 no cadáver congelado de um homem da Idade do Cobre

Os restos mortais do homem, que foi apelidado pelos cientistas de “Ötzi”, datam de 3.300 anos antes de Cristo. Em seu corpo foram encontradas diversas linhas na região das costas, tornozelos, punhos, joelhos e pés. Com base nos testes e exames realizados no corpo, os cientistas concluíram que o povo de Ötzi utilizava os desenhos como uma espécie de tratamento médico para diminuir a dor.

Com o desenvolvimento das civilizações, as tatuagens ganharam outros significados. As mulheres que dançavam nos funerais egípcios por volta de 2000 antes de Cristo tinham os mesmos desenhos abstratos de traços e pontos encontrados em múmias do sexo feminino desse período. 

Enquanto algumas civilizações costumavam adornar seus corpos com desenhos e técnicas variadas, os antigos romanos não faziam tatuagens por acreditarem na pureza da forma humana. Por esse motivo, as tatuagens eram banidas e reservadas apenas para os criminosos e os condenados.

Com o passar do tempo, os romanos começaram a mudar sua visão com relação à tatuagem, motivados principalmente pelos guerreiros bretões, que usavam insígnias de honra tatuadas na pele.



A origem do preconceito


O preconceito contra tatuagens surge e se estabelece no início do primeiro século depois de Cristo, quando as autoridades religiosas (sempre elas!) proibiram os desenhos na pele por serem considerados resquícios do paganismo e uma mácula à santidade do corpo, que era considerado o “templo do Espírito Santo”.



Muitos anos após, em 1920, a arte na pele ainda sofria o preconceito herdado desde a Idade Média, mas começou a se popularizar entre os marinheiros, fuzileiros navais e piratas.

Naquele tempo, as tradições familiares eram muito fortes e até mesmo a exposição do corpo era mal vista pela sociedade. E mostrar o corpo, cheio de desenhos, era uma violação ainda mais grave para os pudores da época.

Pensando então nessa sociedade cristã e tradicionalista, os tatuados se destacavam por viver um estilo de vida “underground”, fora do padrão, ligado à conceitos pejorativos, perpetuando assim um estigma que existe até hoje contra tatuagens.

Pessoas tatuadas foram rotuladas como “marginais”, “pecadores”, “baderneiros”, “bandidos” e muitos outros termos desfavoráveis que você já deve ter ouvido por aí, ou mesmo de um parente, na hora de fazer uma tattoo.

Hoje em dia


Felizmente, nos dias atuais, o preconceito tem caído por terra e a tatuagem começou a ser vista como uma forma de expressão pessoal e artística

Essa mudança começou em meados da década de 1950, quando novos padrões estéticos começaram a ser propagados pela mídia e pelos ídolos de uma nova juventude, com referência de cantores de rock principalmente. Assim, a tatuagem começou a sair do gueto e invadir todos os espaços sociais.




Tatuagem e trabalho


Tatuagens, em geral, ainda  não são vistas com bons olhos em organizações mais tradicionais.

Mas ter uma tattoo hoje em dia é muito mais normal do que na geração de nossos pais e avós, e estas organizações estão aceitando isso cada vez mais.

Mas vale algumas ressalvas, por exemplo, ter uma tatuagem de flor / pássaro / cachorro / gato no braço não vai fazer diferença durante o processo seletivo, mas ter um demônio tatuado na testa em uma seleção de recepcionista de hotel sim.

Dependendo da profissão escolhida, a tatuagem pode passar mesmo uma imagem errada, mas isso se deve mais por uma questão de expressão pessoal do que pela tatuagem em si.

Outro ponto importante é não fazer desenhos que possam soar ofensivos ou símbolos de crimes. Ninguém vai querer contratar alguém com uma tatuagem de suástica nazista na mão ou de um palhaço, marca de quem defende a morte de policiais.



Tatuagem e concurso público


O Supremo Tribunal Federal decidiu em 2016 que só podem ser eliminados candidatos que possuam tatuagens que incitem a violência ou discriminação de qualquer tipo. Ou seja, todo e qualquer candidato que tenha tatuagem e não seja dos tipos citados acima, pode sim prestar concursos públicos sem receio de serem barrados.

Mais um vez destaco: O que importa aqui é o significado enquanto expressão de posturas e opiniões pessoais. O que importa não é a tatuagem em si.

Para finalizar, hoje já existem até leis que proíbem a discriminação contra pessoas tatuadas.

Os estúdios de tattoo se multiplicam em várias partes do mundo, graças a uma nova visão social e cultural, que se tudo der certo, continuará em evolução e permitirá que cada um possa se expressar e ter total liberdade sobre sua imagem e seu corpo, sem sofrer nenhum tipo de preconceito.




Fiquemos atentos ao recente avanço do conservadorismo.

Afinal, nosso corpo, nossas regras.



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